Uma cicatriz pode despertar uma pergunta simples: há algo mais que possa ser feito para melhorar sua aparência? É uma pergunta legítima. A resposta, porém, precisa considerar tanto o que já conhecemos quanto o que continua em investigação.
A toxina botulínica tipo A aparece nessa conversa por uma aplicação diferente daquela mais conhecida no tratamento das linhas de expressão: seu possível papel na qualidade da cicatriz cirúrgica. O interesse científico existe. Para quem pensa em operar, importa compreender exatamente o que foi observado — e o que isso permite esperar.
O que a pesquisa recente encontrou
Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 22 de setembro de 2026 no Aesthetic Surgery Journal reuniu 17 estudos, com 456 participantes e 656 áreas tratadas. O achado com maior certeza foi a redução objetiva da largura das cicatrizes, classificada como evidência de certeza moderada.
Houve também melhora em avaliações feitas por profissionais, mas com certeza baixa ou muito baixa, conforme a medida utilizada. Os resultados relatados pelos próprios pacientes permaneceram incertos. Portanto, uma cicatriz mais estreita não equivale, automaticamente, a uma melhora estética global bem estabelecida. [1]
Outra revisão, publicada na edição de julho de 2026 da Plastic and Reconstructive Surgery, reuniu 19 estudos e 686 pacientes. Encontrou resultados favoráveis em diferentes escalas de avaliação, na largura cicatricial e na satisfação. Seus autores também apontaram a necessidade de estudos maiores e mais homogêneos. [2]
Lidas em conjunto, essas publicações justificam acompanhar o tema. Não transformam a aplicação em uma etapa obrigatória de toda cirurgia.
A largura não conta toda a história
No artigo “A cicatriz também faz parte da decisão”, discutimos como uma marca pode importar por diferentes razões. A largura é apenas uma delas. Cor, relevo, flexibilidade e sintomas também participam da avaliação e da escolha do tratamento. [3]
Para a pessoa que convive com a cicatriz, a pergunta pode ser outra: ela incomoda ao vestir determinada roupa? Provoca coceira? Limita um movimento? Ou chama atenção principalmente por sua cor?
Um resultado favorável em uma medida merece ser reconhecido pelo que demonstra. A decisão clínica precisa considerar se aquela mudança corresponde ao problema que se deseja tratar.
Ainda não existe uma resposta única sobre quando aplicar
A revisão de setembro identificou incertezas sobre momento, dose, plano de aplicação e regiões anatômicas. Algumas análises sugeriram maior efeito com aplicação adiada, mas comparações diretas sobre o momento de tratar trouxeram resultados conflitantes. Isso não define um calendário universal nem permite concluir que mais produto produziria uma cicatriz melhor. [1]
Para o paciente, essa incerteza tem uma consequência prática: uma proposta precisa vir acompanhada de uma explicação sobre seu objetivo, suas limitações e as alternativas disponíveis.
Não é suficiente ouvir que um recurso “ajuda na cicatrização”. Vale compreender qual benefício está sendo buscado e por que ele faria sentido naquele caso.
Prevenir e tratar uma cicatriz existente são perguntas diferentes
Uma pesquisa sobre intervenção próxima ao período cirúrgico não responde, por si só, como tratar uma cicatriz antiga. Da mesma forma, resultados sobre determinada situação não autorizam generalizações para todas as marcas.
Uma cicatriz elevada, uma marca alargada e um queloide podem exigir abordagens diferentes. A avaliação pode levar a cuidados tópicos, tratamentos injetáveis, laser ou revisão cirúrgica, conforme o diagnóstico e o objetivo. Em alguns casos, combinam-se recursos; em outros, acompanhar é suficiente. [3]
Por isso, procurar um procedimento pelo nome pode inverter a ordem da decisão. Primeiro é preciso compreender a cicatriz. Depois, avaliar as opções.
Um possível benefício também precisa ser comparado aos riscos
A revisão de julho descreveu eventos adversos predominantemente leves e transitórios, sem diferença significativa entre os grupos estudados. Esse resultado não exclui complicações raras nem garante segurança em qualquer forma de aplicação. [2]
A Anvisa alerta que os efeitos da toxina podem atingir áreas distantes da aplicação e causar sintomas graves. Dificuldade para engolir, falar ou respirar após o procedimento exige atendimento imediato. Produto registrado, serviço autorizado, profissional habilitado e conhecimento das aplicações anteriores fazem parte dos cuidados de segurança. [4]
Também é necessário distinguir evidência científica de indicação aprovada em bula. O registro de um medicamento não significa aprovação para qualquer finalidade estudada. Se a proposta envolver uso fora das indicações da bula — chamado off-label —, essa condição deve ser esclarecida, junto das incertezas e alternativas.
A novidade precisa encontrar uma razão para entrar no cuidado
Conhecer uma possibilidade não obriga o paciente a utilizá-la. Uma consulta deve permitir perguntas concretas: o que se espera melhorar? Quanto dessa expectativa vem de estudos comparáveis ao meu caso? Que riscos e custos serão acrescentados? O que acontece se eu optar por não fazer?
Essas perguntas ajudam a preservar o lugar da pesquisa na prática: informar decisões, sem transformar cada resultado promissor em necessidade.
A toxina botulínica merece atenção no estudo das cicatrizes cirúrgicas. Seu lugar no cuidado deve ser construído com a mesma precisão usada para interpretar a evidência. Uma possibilidade pode ser valiosa sem precisar se tornar uma promessa.
Leitura e referências
Fontes consultadas
- Ho et al. Botulinum Toxin Type A for Postoperative Scar Prevention: A Systematic Review and Meta-analysis. Aesthetic Surgery Journal. Publicação online: 22/09/2026. DOI: 10.1093/asj/sjag204. Consulta ao resumo publicado; texto integral restrito.
- Chávez-Goicochea et al. Efficacy and Safety of Botulinum Toxin Type A for Pathological Scar Prevention: A Systematic Review and Meta-Analysis. Plastic and Reconstructive Surgery. 2026;158(1):53e–64e. PubMed. Consulta ao resumo.
- American Academy of Dermatology. Scars: Diagnosis and treatment.
- Anvisa. Alerta sobre risco de botulismo após administração de toxina botulínica. Publicado em 12/03/2025; atualizado em 01/08/2026.
- CFM — Resolução nº 2.336/2023.
Fontes conferidas em 06/10/2026. As duas metanálises foram avaliadas pelos resumos publicados; o texto integral da revisão de setembro está restrito. Revisão editorial orientada pela Resolução CFM nº 2.336/2023, mantendo caráter educativo e ausência de promessa de resultado.